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Entrevista

“Cidadania deixa de ser apenas um conteúdo e passa a ser uma experiência”, diz coordenadora do Estudantes em Movimento

Com o encerramento da edição de 2026, Maria Vitória relembra experiências e aprendizados do projeto.

Maria Vitória Lima fala sobre os aprendizados do Estudantes em Movimento: “Cidadania deixa de ser apenas um conteúdo e passa a ser uma experiência”

Criado para aproximar estudantes das práticas de participação e controle social, o Estudantes em Movimento utiliza a metodologia de Auditoria Cidadã para incentivar os jovens a observar a realidade de suas escolas, identificar desafios e propor soluções. Coordenado pelo Conselho Nacional de Controle Interno (CONACI), o projeto chegou, em 2026, a 11 estados brasileiros, envolvendo escolas com diferentes realidades.

Ao longo da edição, os estudantes foram convidados a participar ativamente do cotidiano escolar, colocando em prática habilidades como escuta, diálogo, análise e tomada de decisão. A partir de questões presentes em seus próprios territórios, desenvolveram projetos e ações voltados a desafios identificados por eles.

Em entrevista para a Redenec, Maria Vitória Lima, coordenadora do Estudantes em Movimento, fala sobre a trajetória do projeto, os aprendizados da edição de 2026 e as experiências que marcaram o percurso dos estudantes. Confira a seguir.

1. O que é o Estudantes em Movimento e como surgiu o projeto?

O Estudantes em Movimento é um projeto coordenado pelo Conaci que utiliza a metodologia de Auditoria Cidadã como ferramenta de educação para a cidadania e de estímulo ao protagonismo estudantil. A proposta é aproximar os estudantes das práticas de participação social e controle social, permitindo que eles olhem para a realidade da própria escola, identifiquem problemas, construam diagnósticos e pensem coletivamente em soluções.

Essa metodologia não surgiu especificamente com o Estudantes em Movimento. Ela é resultado de uma construção que vem sendo desenvolvida e aprimorada por diferentes Controladorias em todo o Brasil. A experiência teve início em 2015, no Distrito Federal, e, posteriormente, foi adaptada e implementada por diferentes municípios e estados, a partir das características e realidades de cada território.

Em Belo Horizonte, por exemplo, essa experiência se consolidou por meio do Projeto Aluno Auditor, enquanto, no Estado de Goiás, foi desenvolvida a experiência do Projeto Estudantes de Atitude. São iniciativas que ajudaram a demonstrar o potencial da Auditoria Cidadã como instrumento de educação cidadã e participação dos estudantes.

O Estudantes em Movimento nasce, então, desse acúmulo de experiências com mentores de todo o Brasil. O Conaci busca reunir e ampliar essas práticas, criando uma metodologia que possa conectar diferentes controladorias e redes de ensino e, ao mesmo tempo, respeitar as particularidades de cada escola. Mais do que ensinar o estudante sobre cidadania, a proposta é criar condições para que ele exerça a cidadania na prática: observando o seu território, fazendo perguntas, identificando problemas, dialogando com diferentes atores e participando da construção de soluções.

Acredito que essa é a grande potência do projeto: transformar a escola em um espaço real de participação e mostrar ao estudante que ele não é apenas alguém que recebe políticas públicas, mas também pode acompanhar, questionar, propor e contribuir para a transformação da realidade em que está inserido.

2. O que vocês aprenderam com a primeira edição e o que mudou no projeto de um ano para o outro? Houve muitos redirecionamentos?

A primeira edição foi muito importante justamente porque nos mostrou, na prática, o potencial que existia no projeto, mas também aquilo que precisava ser aprimorado. A gente percebeu que não bastava propor atividades. Era preciso criar uma metodologia que desse mais autonomia aos estudantes, e orientar melhor professores e pontos focais e, principalmente, estruturar o projeto de uma maneira que pudesse respeitar as diferentes realidades das escolas e dos territórios.

Então, houve, sim, redirecionamentos. A edição de 2026 chegou mais estruturada, com etapas mais claras, uma metodologia mais consolidada e materiais de apoio mais robustos. Também ampliamos o olhar para a formação dos professores e para o papel das Auditorias Cidadãs e do desafio de transformação da realidade da escola, buscando tornar a experiência ainda mais significativa para os estudantes. Mas, mesmo com todas essas mudanças e esse processo de amadurecimento, uma coisa permaneceu no centro de tudo: o estudante. O projeto foi crescendo, incorporando aprendizados da primeira edição e das experiências das próprias controladorias, sem perder sua essência.

E talvez um dos sinais mais importantes desse crescimento tenha sido a ampliação do alcance do projeto, que, em 2026, chegou a 11 estados brasileiros, conectando diferentes realidades, escolas e experiências de participação estudantil.

3. Na sua percepção, o que muda — ou você espera que mude — na trajetória de um estudante quando ele participa do Estudantes em Movimento?

Eu espero que ele passe a se enxergar como alguém que pode participar e transformar a realidade, e não apenas como alguém que precisa esperar que outra pessoa resolva os problemas. Talvez essa seja uma das maiores transformações: perceber que a opinião dele tem valor, que ele pode fazer perguntas, identificar problemas, propor soluções, dialogar com adultos e ocupar espaços de participação. E acho que isso ultrapassa os muros da escola. Quando um estudante percebe que pode transformar a própria escola, ele começa a perceber que também pode participar da transformação do seu bairro, da sua cidade e da sociedade.

4. Tem alguma experiência ou história de estudante ou escola que tenha te marcado especialmente durante o projeto?

É difícil escolher uma única experiência, porque foram muitas histórias que mostraram, na prática, o potencial do projeto. Na edição de 2025, por exemplo, uma escola de um município do interior de Minas Gerais identificou um problema de acessibilidade na biblioteca, que ficava no segundo andar e não era acessível aos estudantes cadeirantes. A partir da própria percepção, os estudantes se mobilizaram e realizaram a mudança necessária para garantir o acesso.

Em 2026, uma escola indígena do Piauí catalogou e organizou uma exposição de arte indígena dentro da própria escola, valorizando a cultura e os saberes da comunidade. Também tivemos projetos que, com soluções simples e criativas, conseguiram transformar problemas que faziam parte do cotidiano dos estudantes.

Em Anápolis, Goiás, por exemplo, os estudantes se mobilizaram diante de uma obra de quadra esportiva que estava paralisada. Eles envolveram a comunidade, buscaram respostas e deram visibilidade à situação. O resultado foi a retomada da obra, que posteriormente foi inaugurada.

São experiências muito diferentes entre si, mas que têm algo em comum: o estudante olha para a realidade, identifica um problema ou uma oportunidade, se organiza, se manifesta e participa da construção de uma solução. São experiências como essas que mostram que não existe uma única forma de exercer cidadania, ela ganha sentidos diferentes em cada território, comunidade e escola.

5. Na sua visão, quais dimensões da formação cidadã são mais mobilizadas no projeto? E o que essa experiência revela sobre a diferença entre aprender sobre cidadania e, de fato, exercê-la na prática?

Eu acho que o projeto mobiliza várias dimensões ao mesmo tempo: participação, autonomia, responsabilidade coletiva, pensamento crítico, diálogo, escuta, pertencimento e capacidade de propor soluções. Mas talvez a principal diferença esteja justamente entre conhecer um conceito e vivencia-lo.

É muito diferente dizer para um estudante que ele tem direito à participação e criar uma situação em que ele realmente precisa identificar um problema, ouvir outras pessoas, construir uma proposta, dialogar com a gestão da escola e tentar transformar aquela realidade.

Quando ele faz isso, cidadania deixa de ser apenas um conteúdo e passa a ser uma experiência. E acho que essa é uma das grandes potências do Estudantes em Movimento: mostrar que educação cidadã não precisa acontecer apenas em uma aula sobre cidadania. Ela pode acontecer quando um grupo de estudantes se reúne para resolver um problema real da própria escola.

6. Com o encerramento desta edição e o anúncio dos vencedores, qual é o principal aprendizado que o Estudantes em Movimento 2026 deixa para você?

Ainda teremos um momento muito importante para fechar essa edição: a viagem dos estudantes vencedores a Brasília, nos dias 18 e 19 de novembro de 2026. Então, olhando para tudo o que já vivemos até aqui, acredito que o principal aprendizado que o Estudantes em Movimento me deixa é que quando criamos espaço e confiamos nos estudantes, eles nos surpreendem.

Durante todo o projeto, eu pude acompanhar ideias, soluções e mobilizações que talvez não acontecessem se os estudantes não tivessem recebido esse espaço para falar, observar e agir. E também aprendi que não existe uma única forma de exercer cidadania. Cada escola encontrou um caminho diferente, de acordo com sua realidade, seus desafios e seus estudantes.

Por isso, quando a gente olha para os vencedores, não pode esquecer de todas as outras escolas que participaram. Cada uma delas representa uma experiência de participação. Para mim, o maior resultado do Estudantes em Movimento não está apenas nos troféus ou nas classificações. Está em fazer um estudante sair da experiência pensando: “eu posso fazer alguma coisa sobre isso”. E, se a gente conseguir deixar essa sensação com esses estudantes para além do projeto, acredito que já teremos feito algo muito importante.

O que fica depois do projeto

O Estudantes em Movimento mostra a importância de vivenciar a educação cidadã na prática, criando oportunidades para que os estudantes observem a realidade, identifiquem desafios, participem da busca por soluções e desenvolvam senso de responsabilidade pela comunidade da qual fazem parte. Ao longo das edições, diferentes escolas partiram de questões presentes em seus próprios territórios para desenvolver experiências de participação, diálogo e aprendizado.